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1892 __ « Civilização »
José Maria de Eça de Queiroz (1845-1900)
Comment : José Maria Eça de Queiroz or José Maria de Eça de Queirós (1845-11-25 – 1900-08-16) was a Portuguese novelist, short-story writer, travel-writer, critic and diplomat. His novels, which are often compared to those of Balzac, Flaubert and Zola, satirize the Portuguese bourgeoisie and priesthood.On 1 October 1892 Eça de Queiroz had published in the Gazeta de Noticias a short story entitled 'Civilização' (Civilisation). In it a narrator tells the stroy of a young man, Jacinto, who lives in Lisbon. In his mansion he had installed every piece of machinery that the nineteenth had invented. The interior was a bizarre mixture of ancient and modern. From the leather chair, complete with coat of arms, on which he sat while writing, hung acoustic tubes, a form of primitive telephone. On top of his old desk he had a typewriter, a morse telegraphic machine, a phonograph and a telephone. When he was working, there was a great deal of distrubance : « Constantly short, sharp sounds resounded in the warm air of that sanctuary. Tick, tick, tick ! Ting, ting, ting ! Crack, crack, crack ! Trrre, trrre, trrre ! [...] ». The end of the story was pastoral : « At at that time, on his balcony in Tormes, without phongraph and without telephone, having returned to the simple life, Jacinto was watching the cattle coming home to the song of the herdsmen as the first star flickered in the slow peace of the evening. » [...] At the end of 1893, in a letter to the publisher in which he suggested the publication of several short books.a project never realized.[Eça de Queiroz] said that he was preparing "le premier de ces petits 'machins', une 'nouvelle phantaisiste' qui s'appelle 'A Cidade e as Serras' (The City and the Mountains). In 1894 he told him that it would be no longer than four chapters. The work.which contained many scenes from "Civilização".grew longer. Throughout the entire decade Eça added pages. [...] At the time of Eça's death there were proofs only of the 'Cidade' section, forty pages of which had not yet been printed. [...] The novel was finally published in 1901 (in french : 202 Champs Élysées), the revision having been done by Ramalho. (Maria Filomena Mónica)
French comment : La nouvelle “Civilização”, publiée en 1892, représente probablement dans la littérature la première satire de ce que l'on appellerait aujourd'hui le snobisme de la high-tech. Le narrateur y rend visite à son ami Jacinto, qui vit enfermé dans son palais, entouré de toutes les richesses possibles, en particulier ce qui est alors le dernier cri en matière de technologies de communication. Le narrateur décrit ainsi comment, alors que Jacinto voulait faire une démonstration du phonographe à des amis, une maladresse fausse quelque ressort du phonographe et amène celui-ci à répéter, de manière inlassablement ironique, l'enregistrement de la voix caverneuse du conseiller Pinto Porto prononçant ce lieu commun d'époque "Merveilleuse invention ! Qui n'admirera les progrès de ce siècle !". Jacinto, "l'ami en communication" ("o meu amigo comunicando") est évidemment lassé de tous les trésors qui l'entourent ("Quelle barbe !"), et, grâce à l'intervention du narrateur, il retrouve les joies des plaisirs simples de la campagne. Civilizaçäo est donc une des premières oeuvres littéraires à établir une critique radicale du culte de la machine et à chanter l'éloge du retour à la nature. (André Lange)
Portuguese comment : Civilização é um conto de Eça de Queirós aonde é narrada a vida de Jacinto, um homem novo e culto que vivia luxuosamente, rodeado dos mais sofisticados e recentes inventos e das mais belas obras-primas da literatura. De facto, Jacinto era um homem sempre aborrecido, desanimado e entediado, apesar do luxo em que vivia. Era o protótipo do homem civilizado mas também da infelicidade. Tudo havia de mudar quando o protagonista decide ir passar uma temporada bem longe da civilização. Jacinto tenta superar o isolamento enviando para aí todos os equipamentos técnicos e demais apetrechos que julgava indispensáveis a uma vida civilizada e luxuosa. Contudo, ao chegar, apercebe-se que os caixotes enviados não tinham chegado e que a nenhuma da suas ordens, relativas à realização de obras na casa, tinha sido cumprida. Inicialmente desmoralizado e ainda mais pessimista com tamanha "tragédia", Jacinto é, subitamente, invadido e transformado pela beleza e simplicidade da vida campestre. E vai ser assim, longe da civilização, dispensando os exageros do luxo, que Jacinto redescobre o prazer e a alegria de viver. (Compiled from various sources)
Original excerpt 1 : « O que porém mais completamente imprimia àquele gabinete um portentoso caráter de civilização eram, sobre as suas peanhas e carvalho, os grandes aparelhos, facilitadores do pensamento - a máquina de escrever, os autocopistas, o telégrafo Morse, o fonógrafo, o telefone, o teatrofone, outros ainda, todos com metais luzidios, todos com longos fios. Constantemente sons curtos e secos retiniam no ar morno daquele santuário. Tic, tic, tic! Dlim, dlim, lim! Crac, crac, crac! Trrre, trrre!... Era o meu amigo comunicando. Todos esses fios mergulhavam em forças universais. E elas nem sempre, desgraçadamente, se conservavam domadas e disciplinadas! Jacinto recolhera no fonógrafo a voz do conselheiro Pinto Porto, uma voz oracular e rotunda, no momento de exclamar com respeito, com autoridade: - "Maravilhosa invenção! Quem não admirará os progressos deste século?" Pois, numa doce noite e S. João o meu supercivilizado amigo, desejando que uma senhoras parentas de Pinto Porto (as amáveis Gouveias) admirassem o fonógrafo, fez romper o bocarrão do aparelho, que parece uma trompa, a conhecida voz rotunda e oracular: - "Quem não admirará os progressos deste século?" Mas, inábil ou brusco, certamente desconcertou alguma mola vital - porque de repente o fonógrafo começa a redizer, sem descontinuação, interminavelmente, com uma sonoridade cada vez mais rotuna, a sentença o conselheiro: - "Quem não admirará os progressos deste século?" Debalde Jacinto, pálido, com os dedos trémulos, torturava o aparelho. A exclamação recomeçava, rolava, oracular e majestosa: - "Quem não admirará os progressos deste século?" Enervados, retirámos para uma sala distante, pesadamente revestida dde panos de Arrás. Em vão! A voz de Pinto Porto lá estava, entre os panos de Arrás, implacável e rotunda: - "Quem não admirará os progressos deste século?" Furiosos, enterramos uma almofada na boca do fonógrafo, atirámos por cima mantas, cobertores espessos, para sufocar a voz abominável. Em vão! sob a mordaça, sob as grossas lãs, a voz rouquejava, surda mas oracular: - "Quem não admirará os progressos deste século?" As amáveis Gouveias tinham abalado, apertando desesperadamente os xailes sobre a cabeça. [...] Ao descer, penetrei no gabinete de trabalho de Jacinto e tropecei num montão negro de ferragens, rodas, lâminas, campainhas, parafusos... Entreabri a janela, e reconheci o telefone, o teatrofone, o fonógrafo, outros aparelhos, tombados das suas peanhas, sórdidos, desfeitos sob a poeira dos anos. Empurrei com o pé este lixo do engenho humano. A máquina de escrever, escancarada, com os buracos negros marcando as letras desarraigadas era como uma boca alvar e desdentada. O telefone parecia esborrachado, enrodilhado nas suas tripas de arame. Na trompa do fonógrafo, torta, esbeiçada, para sempre muda, fervilhavam carochas. E ali jaziam, tão lamentáveis e grotescas, aquelas geniais invenções, que eu saí rindo, como de uma enorme facécia, daquele supercivilizado palácio. A chuva de Abril secara: os telhados remotos da cidade negrejavam sobre um poente de carmesim e ouro. E, através das ruas mais frescas, eu ia pensando que este nosso magnífico século XIX se assemelharia um dia àquele Jasmineiro abandonado, e que os outros homens, com uma certeza mais pura do que é a Vida e a Felicidade, dariam como eu com o pé no lixo da supercivilização, e, como eu, ririam alegremente da grande ilusão que findara, inútil e coberta de ferrugem. Àquela hora, decerto, Jacinto, na varanda em Torges, sem fonógrafo e sem telefone, reentrado na simplicidade, via, sob a paz lenta da tarde, ao tremeluzir da primeira estrela, a boiada recolher entre o canto dos boiadeiros. »
Original excerpt 2 : « Ce qui toutefois imprimait le plus complètement à ce bureau un prodigieux caractère de civilisation, c'était, sur leurs socles en chêne, les grands appareils à faciliter la pensée - la machine à écrire, les auto-copieurs, le télégraphe en morse, le phonographe, le téléphone, le théâtrophone, d'autres encore, tous en métal brillant, tous munis de longs fils. Constamment des sons brefs et secs résonnaient dans l'air tiède de ce sanctuaire. Tic, tic, tic ! Dring, dring, dring ! Crac, crac, crac ! Trrr, trrr ! ... C'était mon ami en communication. Tous ces fils plongeaient dans les forces universelles. Et elles n'étaient malheureusement pas toujours sages et disciplinées !. » (Translated by Marie-Hélène Piwnik)
Source : Lange, André (1986), “Stratégies de la musique”, Pierre Mardaga, Bruxelles-Liège, 1986.
Source : De Queiroz, Eça (1892), “Civilisation — in Singularidades de uma rapariga loira - Une singulière jeune fille blonde”, Traduit du portugais et annoté par Marie-Hélène Piwnik, Coll. "Folio bilingue", Gallimard, Paris, 1997, pp. 141-221.
Source : De Queiroz, Eça (1901), “202 Champs Élysées (A cidade e as serras)”, Traduit du portugais et annoté par Marie-Hélène Piwnik, Ed. de la Différence, Paris, 1991; Collection Folio, Gallimard, Paris.
Source : De Queiros, Eça (1902), “Contos”, Porto : Livraria Chardron, 5th Edition, 1921.
Source : Mónica, Maria Filomena & Aiken, Alison (2005), "Eça de Queiroz", Collection Tamesis, vol. 215, Tamesis Books, pp. 362-363.
Urls : http://histv2.free.fr/theatrophone/eca.htm (last visited ) http://www.passeiweb.com/na_ponta_lingua/livros/resumos_comentarios/c/civilizacao_conto (last visited )

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